O Elixir da longa vida por Honoré de Balzac - muestra HTML

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HonorÈ de Balzac

O ELIXIR DA LONGA VIDA

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Nos comeÁos da vida liter·ria do autor, um seu amigo, morto h· muito tempo, deu-lhe o assunto para este estudo, que mais tarde encontrou numa colecÁ„o publicada nos princÌpios deste sÈculo. Segundo as suas conjecturas, trata-se de uma fantasia devida a um tal Hoffman, de Berlim, publicada nalgum almanaque alem„o e esquecida pelos editores das suas obras.

A ĆomÈdia Humanaª, È suficientemente rica de imaginaÁ„o para que o autor possa confessar um inocente pl·gio. N„o se trata, portanto, de uma dessas brincadeiras ‡ moda de 1850, em que todos os escritores inventavam atrocidades para regalo das meninas da Època.

Assim, quando tiverdes chegado ao engenhoso parricÌdio de D. Juan, tentai advinhar a conduta que teriam, em circunst‚ncias mais ou menos semelhantes, as pessoas honestas que, no SÈculo XIX, recebem uma pens„o vitalÌcia sob o pretexto de um catarro ou as que alugam casa a uma velha para o resto dos seus dias. Ressuscitariam essas pessoas os seus providenciais credores?

Por outra, desejarÌamos que juizes conscienciosos determinassem o grau de semelhanÁa que pode existir entre D. Juan e os pais que casam os seus filhos na mira de ambicionadas heranÁas.

A sociedade humana que, no entender dos filÛsofos, caminha na via do Progresso, considera como um passo para o bem individual a arte de esperar pela morte de alguÈm abastado. Esta expectativa deu lugar a profissıes tidas por honestas, mercÍ das quais se vive ‡ custa de futuros defuntos. H· mesmo aqueles que tÍm como condiÁ„o social aguardar o falecimento de parentes ricos. Parecem agachar-se todas as manh„s para chocarem os seus futuros cad·veres e fazem disto, todas as noites, o seu confiado travesseiro. S„o, por vezes, gente digna, como eminÍncias, coadjutores, empregados supranumer·rios ou associados dessas instituiÁıes de previdÍncia chamadas tontinas. Juntemos-lhes aqueles indivÌduos empenhados em adquirir uma propriedade cujo preÁo excede as suas posses, mas que calculam a frio as probabilidades de vida que restam a seus pais ou sogros, octogen·rios ou septuagen·rios, dizendo consigo: Ántes de trÍs anos herdarei necessariamente, e ent„o...ª

Qualquer assassino repugna-nos menos que tais espiıes da Morte. O assassino cedeu, talvez, a um movimento de loucura; poder· arrepender-se, reabilitar-se. Mas os ditos espiıes s„o sempre espiıes, na cama, ‡ mesa, fazendo a sua vida quotidiana. S„o vis em cada momento que passa. E que espÈcie de assassino seria t„o mesquinho como os referidos espiıes?

Acaso n„o reconheceis na sociedade humana uma turba de entes levados pelas nossas leis, costumes e usos a pensar constantemente na Morte dos seus, a desejarem-na? Calculam o preÁo dum funeral enquanto compram tecidos caros para as suas mulheres, quando pensam ir ao teatro ou tomar uma carruagem de aluguer. Chegam a assassinar deste modo no prÛprio momento em que os prÛprios filhos, com enternecedora inocÍncia, lhes apresentam, ‡ noite, as frontes para receberem um beijo, proferindo: ´Boa noite, paiª. VÍem a todo o momento olhos que desejariam fechar e se reabrem todas as manh„s ‡ luz, como os de Belvidero neste estudo. SÛ Deus sabe o n˙mero de parricÌdios que se cometem em pensamento!

Toda a civilizaÁ„o europeia assenta sobre a lei da HeranÁa, como sobre um eixo, que seria loucura fazer desaparecer. No entanto, n„o poderÌamos, como nas m·quinas que fazem o orgulho da nossa Era, aperfeiÁoar tal engrenagem?

Se o autor utilizou esta forma de pre‚mbulo ao Leitor - num trabalho em que se esforÁa por usar todas as formas liter·rias, foi para introduzir uma nota relativa a alguns estudos, incluindo o presente. De resto, cada um destes trabalhos È baseado em ideias mais ou menos novas, cuja express„o lhe parece ˙til. O autor poder· mesmo arrogar-se ‡ prioridade de certas locuÁıes que passaram depois para o domÌnio da Literatura e assim se vulgarizaram.

A data de publicaÁ„o de cada estudo n„o deve pois ser indiferente ao leitor que desejar fazer justiÁa ao seu autor.

A leitura proporciona-nos amizades ignoradas - e que bom amigo n„o È um nosso leitor? Em contrapartida h· amigos nossos que n„o lÍem qualquer das nossas obras!

O autor espera saldar uma dÌvida dedicando esta obra aos seus leitores desconhecidos.

Num sumptuoso pal·cio de Ferrare, certa noite de inverno, D. Juan Belvidero recebia festivamente um prÌncipe da casa de Este. Nessa Època uma tal recepÁ„o constituÌa espect·culo maravilhoso que sÛ os tesouros reais ou o fausto dum grande senhor poderiam proporcionar.

Sentados ‡ volta de rica mesa iluminada por velas perfumadas, sete mulheres alegres trocavam frases ligeiras, num ambiente de admir·veis obras primas de decoraÁ„o, com os m·rmores brancos sobressaindo de paredes de estuque vermelho, a contrastarem com preciosas tapeÁarias turcas. Vestidas de cetins e resplandecendo ouro e pedrarias que fulguravam menos que os seus olhos, todas falavam de paixıes intensas e diversas como os seus tipos de beleza. SÛ n„o diferiam nas palavras nem nas ideias, a que o ar, um olhar, certos gestos prestavam um coment·rio libertino, sensual, melancÛlico ou zombeteiro.

Uma afirmava: Ós meus encantos sabem aquecer o coraÁ„o gelado dos homens j· idososª.

E outra: ´Gosto de estar recostada em coxins, para pensar, com embriaguez, nos meus adoradoresª.

Uma terceira, noviÁa nesta espÈcie de banquetes, sentia-se inclinada a corar: Ńo fundo do meu coraÁ„o, dizia, sinto um remorso. Sou catÛlica e receio o Inferno, mas amo tanto, oh!

tanto!, que poderei sacrificar pelo meu amor a Eternidade!ª.

A quarta, esvaziando uma taÁa de vinho de Chio, exclamava: ´Viva a alegria! Eu encarno uma existÍncia nova em cada dia que passa. Esquecida do passado, Èbria ainda dos meus sucessos quotidianos, todas as noites esgoto uma vida de felicidade, trasbordante de amorª.

Aquela que estava sentada junto de Belvidero fixava-o com olhar ardente. Conservava-se silenciosa e pensava: Śe o meu amante me abandonasse, nem por isso me entregaria a excessos para o matar!ª Logo sorriu, mas a sua m„o convulsa destruÌa uma caixa de amÍndoas, em ouro, maravilhosamente cinzelada.

- Quando ser· Gr„o-Duque? perguntou a sexta mulher ao PrÌncipe, com express„o de alegria cruel nos l·bios e um brilho de bacante nos olhos.

- E tu, dize-me, quando morrer· o teu pai ? - indagou a sÈtima, lanÁando o seu raminho de flores a Belvidero, com um delicioso gesto traquinas. Era uma rapariga de ar inocente, habituada a divertir-se com as coisas sagradas.

- Ah! n„o me falem disso! - exclamou o jovem e belo D. Juan. H· neste mundo um ˙nico pai eterno, e a desgraÁa quer que seja o meu!

As sete cortes„s de Ferrare, os amigos de Belvidero e o prÛprio PrÌncipe soltaram uma exclamaÁ„o de horror.

Duzentos anos depois, no tempo de LuÌs XV, as pessoas de bom tom ter-se-iam rido daquele dito de espÌrito. Mas, talvez que as almas conservassem ainda, no comeÁo dum festim, a sua lucidez. Apesar do clar„o das velas, do fremir das paixıes, do aspecto dos vasos de ouro e prata, dos vapores do ·lcool e da presenÁa de encantadoras mulheres, subsistiria ainda no fundo dos coraÁıes um pouco do respeito pelos sentimentos humanos e as coisas divinas, que luta atÈ a orgia o afogar nas ˙ltimas gotas dum vinho espumoso. No entanto, j· as flores se estiolavam, os olhos desumanizavam-se e a embriaguez chegava, segundo a express„o de Rabelais, ‡ ponta dos pÈs. E neste momento de silÍncio abriu-se uma porta e, como no banquete de Baltazar, o Diabo surgiu sob a aparÍncia de velho criado, de cabeÁa encanecida, o andar vacilante e as sobrancelhas contraÌdas. Fez a sua entrada com ar triste e com o olhar murchou as grinaldas, amorteceu o brilho das pratas douradas, o viÁo das pir‚mides de frutos, o esplendor da festa, o vermelho dos rostos e a cor dos coxins amarfanhados pelos nÌveos braÁos das mulheres; lanÁou, enfim, a tristeza no estonteamento, proferindo em voz cava estas palavras sombrias:

- Senhor, vosso pai est· a morrer.

D. Juan ergueu-se lanÁando aos seus convidados um gesto que poderia traduzir-se por:

´Desculpem-me, isto n„o sucede todos os diasª.

A morte dum pai n„o surpreende os jovens entre os esplendores da vida ou as loucas expansıes dum festim. … t„o brusca nos seus caprichos como uma bacante nos seus desdÈns, embora, mais fiel do que estas, nunca iluda ninguÈm.

No momento em que D. Juan fechou a porta da sala do banquete e caminhou por uma extensa galeria, t„o ·lgida como escura esforÁou-se por tomar uma atitude hipÛcrita porque, pensando na sua dignidade de filho, tinha posto de lado a alegria juntamente com o guardanapo. A noite estava lÙbrega. O discreto serviÁal que conduzia D. Juan ao aposento paterno iluminava mal o seu amo, de maneira que a Morte, ajudada pelo frio, o silÍncio e a obscuridade pÙde suscitar na sua alma, talvez por uma reacÁ„o da embriaguez, algumas reflexıes graves. Assim interrogou o seu passado e ficou cabisbaixo como um acusado caminhando para o tribunal.

Bartolomeu Belvidero, pai de D. Juan, era um nonagen·rio que passara a maior parte da vida em grandes transacÁıes comerciais. Tendo percorrido as mais frequentes vezes as regiıes enfeitiÁadas do Oriente, adquirira avultadas riquezas e, segundo dizia, conhecimentos mais preciosos que o ouro e os diamantes, a que j· ent„o nenhuma import‚ncia ligava. ´Prefiro um dente a um rubi e o poder ao saberª, declarava sorrindo. Este excelente pai gostava de ouvir D. Juan contar-lhe as est˙rdias da juventude e dizia, com ar chocarreiro: ´Meu querido filho, faz todas as asneiras que te possam divertirª. Devia ser o ˙nico velho que sentia prazer diante dum jovem, pois iludia assim a sua velhice com a contemplaÁ„o de uma vida t„o radiosa como era a de D. Juan.

Aos sessenta anos Belvidero apaixonara-se por um anjo de beleza e de inocÍncia. O filho fora o ˙nico fruto desse tardio e breve amor. Havia quinze anos que o velho chorava a morte da sua querida Joana. A numerosa criadagem e o filho atribuÌam a esta dor os h·bitos singulares que o anci„o contraÌra. Refugiado na ·lea menos confort·vel do pal·cio, de onde raramente saÌa, o prÛprio D. Juan n„o entrava ali sem a sua prÈvia autorizaÁ„o. Quando este estranho anacoreta passeava pelo pal·cio ou nas ruas de Ferrare, parecia procurar qualquer coisa que lhe faltava, caminhando abstracto, hesitante, meditabundo, como que em luta com uma ideia ou uma recordaÁ„o. Enquanto o filho dava festas e o pal·cio ressoava com as expansıes da sua alegria, enquanto os cavalos escarvavam nas cocheiras ou os pagens discutiam jogando os dados pela escadas, Bartolomeu Belvidero comia diariamente sete onÁas de p„o e sÛ bebia ·gua. Se consentia em servir-se de um prato de galinha era para dar os ossos a um c„o-de-·gua preto, seu fiel companheiro. N„o o incomodava o ruÌdo. Quando doente, se o som duma corneta ou o latido dos c„es o estremunhavam, contentava-se em dizer: Áh!, È D. Juan que volta!ª

Jamais existiu um pai t„o compreensivo e indulgente. Por isso o jovem Belvidero, habituado a trat·-lo sem cerimÛnia, tinha todos os defeitos das pessoas amimadas, vivendo com seu pai como uma cortes„ caprichosa com amante velho, conseguindo o perd„o de qualquer impertinÍncia com um sorriso, vendendo o seu bom humor e deixando-se amar. Reconstituindo no pensamento o quadro dos seus anos de mocidade, D. Juan compreendeu que lhe seria difÌcil descobrir uma raz„o de queixa do autor dos seus dias.

Agora, ao atravessar a galeria que o levava ao quarto de Bartolomeu moribundo, sentiu despertar um remorso no fundo do coraÁ„o e inclinava-se a perdoar-lhe ter vivido tanto tempo. Nutria sentimentos de piedade filial, como um ladr„o que preza a honestidade ante a possÌvel posse de um milh„o bem roubado. Em breve entrou nas desconfort·veis e enormes salas que compunham os aposentos do pai. Depois de experimentar os efeitos de uma atmosfera h˙mida, em que o cheiro a mofo se exalava das velhas tapeÁarias e dos arm·rios cobertos de pÛ, encontrou-se no quarto do velho, diante do seu leito nauseabundo, junto da lareira apagada. O candeeiro disposto sobre a mesa gÛtica projectava, a intervalos desiguais, manchas de luz mais ou menos intensas sobre o leito e mostrava o rosto do anci„o sob aspectos que variavam. O frio entrava pelas frinchas das janelas mal fechadas e a neve, fustigando as vidraÁas, produzia um ruÌdo surdo. Esta cena contrastava t„o chocantemente com a que D. Juan acabava de abandonar, que ele n„o pÙde deixar de estremecer. Percorreu-o um arrepio quando, ao aproximar-se da cama, um clar„o do candeeiro provocado por uma lufada do vento, iluminou a cabeÁa do velho. Tinha as feiÁıes descompostas e a pele, colada aos ossos, apresentava tons esverdeados, que a brancura da almofada tornava ainda mais horrÌveis. ContraÌda pela dor, a boca entreaberta e desdentada deixava escapar uns gemidos l˙gubres, que pareciam prolongados pelos uivos da tempestade.

N„o obstante estes sinais de destruiÁ„o, dimanava daquela cabeÁa uma forÁa sem limites.

Dir-se-ia um espÌrito superior em luta com a Morte. Os olhos encovados pela enfermidade conservavam uma fixidez singular. Parecia que Bartolomeu procurava abater com o seu olhar um inimigo postado junto do leito. A sua mirada, fixa e gÈlida, tornava-se tanto mais terrÌvel porquanto a cabeÁa se mantinha imÛvel como os cr‚nios lÌvidos que se vÍem nas mesas de anatomia. O corpo, desenhado por inteiro pela cobertura da cama, denunciava a mesma fixidez nos membros. Tudo morrera nele menos os olhos. O ralo que se escapa da sua boca tinha qualquer coisa de mec‚nico.

D. Juan procurou vencer um retraimento para se aproximar do moribundo, ostentando ainda ao peito o raminho de flores oferecido pela cortes„, trazendo assim para junto da morte de seu pai os perfumes da festa e o cheiro do vinho.

- Divertias-te? - murmurou o velho ao deparar com ele.

Nesse instante a voz pura, suave da cantora que deliciava os convivas, acompanhada pelos acordes dum violino, fez esquecer os uivos do temporal ressoando no quarto f˙nebre. D.

Juan desejaria bem que n„o se tivesse feito ouvir ali t„o crua afirmativa ‡ pergunta do moribundo.

Este prosseguiu:

- N„o te quero mal por isso, meu filho...

Tais palavras, repassadas de doÁura, feriram D. Juan que, no Ìntimo n„o perdoou essa pungente bondade paternal:

- Que remorso, pai! - suspirou hipocritamente.

- Pobre Juanin - insistiu o moribundo com voz l˙gubre. - Fui sempre t„o indulgente para ti que n„o poder·s desejar a minha morte.

- Oh! - exclamou D. Juan, se fosse possÌvel restituir-lhe a vida, daria para isso uma parte da minha!

Éstas coisas podem sempre dizer-seª, pensou discretamente. ´Parece que estou a prometer o mundo ‡ minha amanteª.

Mal tinha completado este pensamento o c„o ladrou. Aquele ladrido cheio de perspic·cia fez estremecer D. Juan. Afigurou-se-lhe ter sido compreendido pelo animal.

- Sabia muito bem, meu filho, que podia contar contigo - continuou Bartolomeu. Viverei pois, e ficar·s satisfeito. Viverei, mas sem roubar um sÛ dos dias que te pertencem.

´J· delira!ª, comentou para si o filho.

Depois acrescentou, em voz alta:

- Sim, querido pai, viver· pelo menos tanto como eu, porque a sua imagem nunca se apagar·

no meu coraÁ„o.

- N„o se trata dessa espÈcie de vida - replicou o velho, reunindo as poucas forÁas para se erguer um pouco pois sentia-se abalado por uma dessas suspeitas que sÛ despertam sob o travesseiro dos agonizantes.

- Escuta, Juanin - prosseguiu, enfraquecido por aquele ˙ltimo esforÁo: desejo tanto morrer como tu privares-te de amantes, de vinho, de cavalos, de c„es, enfim de dinheiro...

Ássim o creioª, conjecturou ainda D. Juan, ajoelhando ‡ cabeceira do leito e beijando uma das m„os daquele quase cad·ver:

- Pai, querido pai - disse, temos de nos submeter ‡ vontade de Deus.

- Deus, sou eu! - resmungou o velho.

- N„o blasfeme! - suplicou o jovem, deparando no pai com uma express„o de ameaÁa. Tenha cuidado, porque recebeu j· a extrema-unÁ„o, e eu nunca me resignaria vendo-o morrer em pecado!

- Queres ou n„o escutar-me?! - vociferou o agonizante, rangendo os maxilares.

D. Juan calou-se. Caiu no quarto um silÍncio sinistro. Por entre os silvos surdos do granizo, l· fora os acordes do violino e o canto melodioso ouviam-se novamente, tÈnues como a luz dum dia que desponta. O anci„o sorriu:

- AgradeÁo-te teres convidado cantoras e m˙sicos. H· festa, mulheres jovens e belas, brancas e de cabelos negros, os melhores prazeres da vida... Dize-lhes que fiquem, porque eu vou renascer.

´… j· o auge do delÌrio!ª, pensou o filho, quando Bartolomeu lhe disse de s˙bito:

- Descobri o meio de ressuscitar. Olha: Procura na gaveta da mesa; poder·s abri-la carregando no bot„o que esta oculto pelo entalhe que figura um grifo.

- Pronto, meu pai.

- Bem. Tira de l· o frasquinho de Cristal.

- Est· aqui...

- Gastei vinte anos... - ia o moribundo a contar, mas sentiu que o seu fim chegava e esforÁou-se por acrescentar:

- Logo que eu tenha soltado o ˙ltimo suspiro, fricciona-me todo o corpo com esse lÌquido, e eu ressuscitarei...

- H· muito pouco - notou D. Juan.

Entretanto, Bartolomeu, se j· n„o podia falar, tinha ainda a faculdade de ouvir e ver. As palavras do filho fizeram-lhe voltar a cabeÁa num movimento brusco. Ficou com o pescoÁo torcido como o duma est·tua de m·rmore condenada pelo escultor a olhar eternamente de lado. As suas pupilas dilatadas tinham tomado uma imobilidade odiosa. Estava morto.

Expirara ao perder a sua ˙ltima e ˙nica ilus„o. Ao procurar a sua derradeira salvaÁ„o no coraÁ„o do filho, encontrara neste um t˙mulo mais profundo do que o preparado pelos homens para jazida dos seus mortos. Os cabelos eriÁaram-se-lhe de pavor, sÛ o seu olhar pareceu exprimir ainda alguma coisa. Era j· como um pai que se erguia do sepulcro para suplicar vinganÁa a Deus.

- Pronto! O homenzinho acabou... - cuidou D. Juan.

Na ‚nsia de observar o misterioso frasco ‡ luz do candeeiro ‡ semelhanÁa de um apreciador que examina a sua garrafa no fim do repasto, olhava perplexamente para o pai e o frasco. A seu lado, o c„o-de-·gua observava da mesma maneira, ora o frasco ora o dono morto.

O candeeiro projectava clarıes movediÁos. O silÍncio tornara-se mais solene. O violino e a voz da cantora tinham emudecido. O jovem estremeceu, parecendo-lhe que o defunto se mexera. Intimidado pela fixidez acusadora dos seus olhos, foi cerrar-lhos como teria fechado uma persiana batida pela rajada em noite invernosa.

Conservou-se de pÈ, imÛvel, perdido num caos de pensamentos. De s˙bito um ruÌdo seco, lembrando o duma mola emperrada, cortou a mudez. Surpreendido D. Juan quase deixou cair o frasco. Inundou-o um suor mais frio do que aÁo de punhal. O galo de madeira pintada do relÛgio familiar surgiu e cantou trÍs vezes. Era daqueles maquinismos engenhosos, de que se serviam os s·bios da Època para despertarem ‡ hora fixada para as suas lucubraÁıes. A aurora avermelhava j· as janelas. D. Juan tinha passado dez horas a reflectir. O velho relÛgio era mais fiel do que ele ao cumprimento dos seus deveres para com Bartolomeu.

Aquele mecanismo compunha-se de corda, alavanca e rodas dentadas, enquanto ele tinha o m˙sculo peculiar aos homens, que se chama coraÁ„o. Para n„o se arriscar a perder o precioso lÌquido, D. Juan voltou a guard·-lo, cepticamente, na gaveta da mesinha gÛtica.

Nesse instante ouviu nas galerias do pal·cio um tumulto confuso. Eram vozes indistintas, risos abafados, todo o rumor dum grupo alegre procurando conter-se. Finalmente, a porta abriu-se e o PrÌncipe, com os restantes convidados aparecerem com a desordem estonteada dos danÁarinos surpreendidos pela claridade da manh„, quando o sol luta ainda com a p·lida chama das velas. Vinham para dar ao jovem herdeiro as condolÍncias da etiqueta.

- Ter· o nosso D. Juan tomado a peito esta morte? - perguntou o PrÌncipe ao ouvido da Brambilla.

- Talvez - respondeu ela, porque o pai era um homem extremamente bondoso.

As meditaÁıes nocturnas de D. Juan tinham-lhe gravado no rosto uma tal express„o que o grupo se sentiu perplexo. Os homens permaneceram hirtos. As mulheres, com os l·bios ressequidos pelo ·lcool, as faces maceradas pelos beijos, ajoelharam e rezaram. O Ûrf„o n„o pÙde deixar de estremecer ‡ vista das alegrias contidas, dos risos desfeitos, dos cantos sumidos, da juventude apagada, da beleza desvanecida, de tudo aquilo que personificava o melhor da vida perante a Morte. PorÈm naquela am·vel It·lia do tempo, o Pecado e a Religi„o, conjugavam-se de tal maneira que se confundiam.

O PrÌncipe apertou afectuosamente a m„o a D. Juan e todos os rostos esboÁaram simultaneamente uma idÍntica express„o, meio triste, meio indiferente. Depois toda esta fantasmagoria protocolar desapareceu, deixando mais vazio o aposento mortu·rio. Era bem a imagem da Vida.

Ao descer a escadaria, o PrÌncipe confiou a Rivabarela:

- Quem teria julgado assim o nosso D. Juan, um fanfarr„o da impiedade?... Afinal, adorava o pai!

- Reparou no c„o?... - indagou Brambilla.

- AÌ temos o nosso amigo fabulosamente rico - sugeriu, suspirando, a Bianco Cavatolino.

- Que importa...? - desdenhou a orgulhosa Veronese, que destruÌra, com m„o nervosa a dourada caixinha de amÍndoas.

- N„o te importo...? - clamou o Duque. Pois com os seus escudos ser· tanto um prÌncipe como eu!

A princÌpio D. Juan, cedendo a mil pensamentos, hesitou entre v·rios partidos a tomar.

Depois de ter avaliado os tesouros acumulados por seu pai, voltou, de noite, para o quarto f˙nebre, a alma esmagada sob feroz egoÌsmo. Encontrou todos os serviÁais ocupados em ordenar os paramentos do catafalco em que o falecido senhor seria exposto no dia seguinte, ao centro duma sumptuosa c‚mara ardente - espect·culo de grande curiosidade, que toda a Ferrara viria admirar.

A um sinal de D. Juan, os criados detiveram-se interditos e trÈmulos.

- Deixem-me sÛ - ordenou com a voz alterada. Continuar„o depois de eu sair.

Quando os passos do velho Mordomo, que foi o ˙ltimo a retirar-se, deixaram de se ouvir sobre as lajes, D. Juan fechou precipitadamente a porta e disse consigo:

- Experimentemos...

O corpo de Bartolomeu fora deitado sobre uma longa mesa. Para ocultarem o odioso espect·culo de um cad·ver a que extrema decrepitude e magreza davam o aspecto de simples esqueleto, os embalsamadores tinham envolvido num lenÁol todo o corpo, excepto a cabeÁa.

Esta espÈcie de m˙mia jazia no meio da dependÍncia, com o sud·rio a desenhar-lhe vagamente as formar esguias e agudas. No rosto j· apareciam largas manchas viol·ceas, que indicavam a necessidade de se apressar o embalsamamento. Apesar de escudado pelo seu cepticismo, D.

Juan hesitou em desrolhar o frasquinho de cristal. Tremia tanto quando se aproximou da cabeÁa do defunto que se sentiu constrangido a aguardar um momento. PorÈm, este jovem, bem cedo corrompido completamente pelos costumes duma corte dissoluta, foi encorajado por uma ideia digna do famoso Duque de Albin, ao mesmo tempo que era aguilhoado pela curiosidade.

Dir-se-ia que o prÛprio Diabo lhe segredava estas palavras, que lhe ecoavam no coraÁ„o:

´Humedece um dos olhosª. Pegou num pano e, depois de o embeber ‡varamente no precioso lÌquido, passou-o ao de leve sobre a p·lpebra direita do cad·ver. O olho abriu-se...

- Ah! - exclamou D. Juan, enclavinhando os dedos no frasco, tal como apertamos, em sonhos, a haste de que nos suspendemos num precipÌcio.

Via aquele olho pleno de vida, como olho de crianÁa na cabeÁa dum morto, a luz cintilando no seu humor lÌquido juvenil, apenas velada por belos cÌlios negros, trazendo ‡ memÛria essas singulares claridades que o viajante avista nos campos desertos, em noites de Inverno. Aquele olho resplandecia, parecia querer precipitar-se para D. Juan, pensava, acusava, condenava, ameaÁava, vociferava, mordia. Todas as paixıes humanas se agitavam nele, as s˙plicas mais ternas, a cÛlera dos reis, o amor de uma donzela pedindo misericÛrdia aos seus algozes. Tinha, por fim, a mirada profunda que um homem lanÁa aos outros do ˙ltimo degrau para o cadafalso. Havia tanta vivacidade naquele fragmento de vida que D. Juan recuou, apavorado. Passeou pelo aposento sem ousar fixar aquele olho, que ele revia no ch„o, nas tapeÁarias, por toda a parte. Toda a dependÍncia estava semeada de pontos luminosos, fulgurantes de vida, de inteligÍncia. E todos esses pontos que eram outros tantos olhos, perseguiam, cercavam D. Juan.

Śer· capaz de viver mil anosª, calculou ele incontidamente, ao voltar junto do pai, levado por uma atracÁ„o diabÛlica a contemplar aquela centelha de luz vivente.

De s˙bito a p·lpebra fechou-se e voltou a abrir-se ·gil, como a de uma mulher que concede.

Se uma voz lhe tivesse dito: Śimª, D. Juan n„o se sentiria mais aterrado.

- Que fazer? - pensou.

Ainda teve coragem para tentar cerrar aquela p·lpebra, mas os seus esforÁos foram in˙teis.

- Ser· um parricÌdio esmag·-lo? - perguntou-se diante do olho.

- Sim - fez-lhe este compreender com uma piscadela irÛnica.

D. Juan debruÁou-se para o esmagar. Uma grossa l·grima rolou pelas faces encovadas do cad·ver e caiu sobre a m„o do filho.

A l·grima queimou-o. Sentou-se, fatigado por uma luta que lhe lembrava a de Jacob com o anjo.

Por fim levantou-se, murmurando:

- Contanto que n„o haja sangue...

Depois, procurando a todo o transe n„o se acobardar, esmagou o olho, servindo-se de um pano e voltando o rosto. Um gemido inesperado, angustioso, surpreendeu-o. Era o c„o que morria uivando.

- Conheceria o segredo do velho? - indagou-se, deitando uma olhadela ao fiel animal.

D. Juan Belvidero passou depois aos olhos do mundo por um filho piedoso. Mandou construir um monumento de m·rmore do mais branco sobre o t˙mulo de seu pai, confiando as figuras que o ornariam aos mais cÈlebres artistas da Època. SÛ se sentiu perfeitamente tranquilo no dia em que a est·tua paterna, ajoelhada aos pÈs da Religi„o, impÙs o seu peso enorme sobre a sepultura em que enterrou o ˙nico remorso que ainda poderia sobressaltar-lhe o coraÁ„o nos momentos de maior lassid„o.

Depois de feito o invent·rio das riquezas acumuladas pelo velho orientalista, tornou-se avarento. Acaso n„o tinha ele de garantir duas vidas com o seu dinheiro? O olhar tornou-se-lhe perscrutador, alongando-o pela sociedade humana e melhor compreendendo o mundo por avist·-lo atravÈs de um t˙mulo. Analisou os homens e os seus actos para n„o se importar, de uma vez para sempre, com o passado representado pela HistÛria, o presente, encarnado pelas leis e o futuro, desvendado pelas religiıes. Tomou o espÌrito e a matÈria, misturou-os num cadinho e, nada aÌ encontrando que valesse a pena, tornou-se, autenticamente, D.

Juan.

No segredo das ilusıes humanas, jovem e belo, lanÁou-se para a vida, desprezando o mundo para melhor dele se apoderar. Assim, a sua felicidade n„o poderia ser a ventura burguesa que se contenta com o cozido trivial, uma confortante botija de ·gua quente na cama, no inverno, um candeeiro para a noite e umas pantufas novas em cada trimestre. Apoderou-se da existÍncia como um sÌmio que apanha uma noz e, sem perda de tempo, trata espertamente de desembaraÁar o fruto da casca in˙til, para lhe saborear a polpa. A poesia e os sublimes arroubos das paixıes deixaram de o interessar. Procurou evitar, o erro de certos homens poderosos que, supondo que as almas ingÈnuas crÍem nas almas fortes, das ideias efÈmeras.

Poderia bem caminhar, como eles, com os pÈs sobre a terra e a cabeÁa a tocar os cÈus: contudo, preferia refestelar-se e devorar de beijos os l·bios, duma mulher meiga, fresca e perfumada, j· que, semelhante ‡ Morte, extinguindo impudentemente tudo por onde passava, exigindo sÛ o amor que possuÌa, um amor ‡ oriental, que lhe proporcionasse apenas amores longos e f·ceis. Amando na Mulher sÛ a fÍmea, adoptou a ironia como a atitude prÛpria da sua alma. Quando nos seus braÁos as amantes subiam ao paraÌso, perdidas num Íxtase de embriaguez, acompanhava-as, meio grave, meio expansivo, t„o sincero como um estudante alem„o. Dizia sempre - Eu, enquanto a louca apaixonada dizia - NÛs. - Sabia admiravelmente deixar-se cativar por uma mulher. Tinha sempre o domÌnio suficiente para a fazer acreditar que tremia como o estudantinho do liceu que segreda ‡ primeira rapariga com quem volteia num baile: ´Gosta de danÁar?ª. Mas n„o sabia menos utilizar uma espada dura e abater comendadores. Ocultava-se zombaria na sua simplicidade e riso nas suas l·grimas, chorando t„o bem como a esposa que diz ao marido: ´D·-me uma carruagem ou morrerei de tÌsica!ª.

Para o negociante o mundo È um acumulado de mercadorias e um bom montante de notas de Banco; para a maior parte dos jovens È uma mulher; para algumas mulheres, um homem; para certos espÌritos, um sal„o, um meio de intrigas, um bairro ou uma cidade inteira. Para D.

Juan o mundo era ele! Modelo de graÁa e de brandura, espÌrito sedutor, soube sempre levar a ·gua ao seu moinho. Simulando deixar-se conduzir, nunca ia alÈm do limite onde queria ser levado. Quanto mais observava mais ia duvidando. Ao analisar os homens, descobriu que, muitas vezes, a coragem n„o passava de temeridade, e a prudÍncia, de cobardia; a delicadeza era patetice e a generosidade, ast˙cia; a justiÁa, um crime, e a probidade, uma convenÁ„o. Descobriu, ainda, que, por um singular destino, as pessoas verdadeiramente honestas, delicadas, justas, prudentes e corajosas n„o mereciam a menor consideraÁ„o social.

- Que cruel ironia! - dizia de si para consigo. N„o, È certamente, obra de Deus.

Ent„o, renunciando a um mundo melhor, nunca mais se descobriu ao ouvir pronunciar nomes sagrados e considerou as imagens das igrejas como simples obras de arte. Assim, conhecendo o mecanismo das sociedades humanas, procurava n„o ferir demasiado os preconceitos, por n„o se sentir t„o forte como os carrascos, mas iludia as leis sociais com subtileza e espÌrito. Foi a encarnaÁ„o de D. Juan, de MoliËre; do Fausto, de Goethe; do Manfred, de Byron e do Melmoth, de Maturin. Grandes figuras criadas pelos maiores GÈnios europeus, cantadas em acordes de Mozart e, talvez, um dia, em ·rias de Rossini. Entes terrÌveis, que o prÌncipe do Mal eterniza e de que se encontram alguns exemplares atravÈs dos sÈculos, quer quando tais personagens entram em negociaÁıes com os homens, encarnadas em Mirabeau, quer se contentem em agir sobrepetÌciamente, como Bonaparte ou em abraÁar o mundo numa ironia, como Rabelais. Mas o GÈnio, ainda mais profundo, de D. Juan Belvidero, resumiu, com antecipaÁ„o, todas essas figuras criadas pela genialidade. A sua foi uma perpÈtua zombaria, em que envolveu os homens, as coisas, as instituiÁıes e as ideias.

Tendo conversado em boa familiaridade, durante meia hora, com o papa J˙lio II sobre a Eternidade, ao concluir disse-lhe, sorrindo:

- Se È em absoluto necess·rio escolher, prefiro crer em Deus a acreditar no diabo; o poder, aliado ‡ bondade, pode proporcionar-nos melhor ref˙gio do que aliado ‡ potÍncia do Mal.

- Sim concordou o PontÌfice, mas o Senhor quer que faÁamos penitÍncia neste mundo...

- Pensais ent„o sempre nas vossas indulgÍncias? - tornou Belvidero. Pois bem, eu tenho reservada, para me arrepender da primeira vida, uma outra completa existÍncia...

- Ah! se compreendes assim a velhice - insistiu J˙lio II - arrisca-te a ser canonizado...

D. Jo„o sorriu; a terminar:

-

Depois da vossa elevaÁ„o ao Papado tudo È possÌvel.

E foram ver os oper·rios ocupados na construÁ„o da imensa basÌlica consagrada a S„o Pedro.

-

O ApÛstolo genial que constituiu o nosso duplo poder - acrescentou o Papa Belvidero, merece este monumento. Mas, por vezes, durante a noite, penso que um novo dil˙vio apagar· tudo isto e ser· forÁoso recomeÁar.

D. Juan e o PontÌfice riram, compreendendo-se. Um tolo teria ido, no dia seguinte, divertir-se com J˙lio II em casa de Rafael ou na deliciosa Vila Madama, mas Belvidero foi vÍ-lo oficiar pontificalmente, para se convencer das suas d˙vidas. Num banquete, o RovÈre teria podido desmentir-se e comentar o Apocalipse.

Mas esta lenda n„o foi criada para fornecer elementos aqueles que desejem escrever memÛrias sobre a biografia de D. Juan. Destina-se a provar ‡s pessoas honestas que Belvidero n„o morreu no seu duelo com uma figura de pedra, como querem fazer-nos acreditar alguns biÛgrafos.

Quando atingiu os sessenta anos, Belvidero fixou-se em Espanha. AÌ, mais avanÁado em idade, desposou uma jovem e encantadora andaluza. Por c·lculo, n„o foi bom esposo nem bom pai. Tinha concluÌdo que nunca seremos t„o ternamente amados como pelas mulheres a quem damos menos atenÁıes. Dona Elvira, santamente criada por uma velha tia, nos confins da Andaluzia, a algumas lÈguas de San-Lucar, era toda dedicaÁ„o e graÁa. D. Juan pressentiu que seria mulher para lutar durante muito tempo contra uma paix„o antes de lhe ceder.

Assim esperou poder conserv·-la virtuosa atÈ ‡ sua morte. Foi um divertimento arriscado, uma como que partida de xadrez que reservou para jogar quando j· fosse velho. Decidiu, pois, subordinar todos os seus actos ao Íxito da comÈdia que deveria ter o desfecho no seu leito de morte. Assim a sua fortuna permaneceu enterrada no pal·cio de Ferrare, onde ia raramente. O resto dos seus bens empregou-os em viajar, no prolongamento da sua vida -

artimanha esta que deveria ter ocorrido tambÈm a seu pai. PorÈm, tal ast˙cia n„o foi para ele de grande proveito. O moÁo Filipe Belvidero, seu filho, saiu-lhe um espanhol t„o conscenciosamente religioso quanto o pai era Ìmpio. Isto, talvez, em obediÍncia ao provÈrbio: Pai avarento, filho prÛdigo.

O abade de San-Lucar foi escolhido para director espiritual da Duquesa de Belvidero e de Filipe. Era este eclesi·stico um santo homem, de admir·vel estatura, bem proporcionado, belos olhos e rosto ‡ TibÈrio, fatigado pelos jejuns, empalidecido pelas maceraÁıes e dia a dia tentado, como s„o os solit·rios. O j· ent„o idoso D. Juan esperava talvez poder ainda matar um anacoreta antes de terminar o primeiro prazo da sua vida. Mas, ou porque o abade fosse de temperamento t„o forte como ele, ou por que Dona Elvira possuÌsse menos ardÍncia ou mais prudÍncia do que a Espanha habitualmente concede ‡s mulheres, Belvidero viu-se constrangido a passar os seus dias calmo como um velho reitor de aldeia, sem esc‚ndalos caseiros. Por vezes sentia prazer em apanhar a mulher ou o filho em falta para com os seus deveres religiosos e ordenava-lhes imperiosamente que cumprissem as suas obrigaÁıes de fiÈis da Santa SÈ ApostÛlica. Finalmente, raro era t„o feliz como quando ouvia o af·vel cura de San-Lucar, Dona Elvira e Filipe entretidos em discutir um caso de consciÍncia. Entretanto, apesar dos cuidados extremos que dedicava ‡ sua pessoa, os dias da sua decrepitude chegaram; e, com os achaques da idade, vieram as imprecaÁıes da impotÍncia, tanto mais desesperadora quanto mais vivas eram as recordaÁıes da sua ardente juventude e de sua voluptuosa maturidade. Aquele homem para quem o maior divertimento era obrigar os outros a acreditarem nas leis e nos princÌpios de que desdenhava, adormecia ‡

noite atormentado por um talvez... Modelo de bom-tom, aquele duque, ousado numa orgia, soberbo mas cortÍs, espirituoso junto das mulheres, a quem vergava pelo coraÁ„o como um campÛnio verga uma haste de vime, enfim aquele homem de GÈnio, tinha um defluxo renitente, uma ci·tica arreliadora, uma gota feroz. Via os dentes irem-se-lhe como, ao fim duma festa nocturna, as mulheres mais brancas e melhor vestidas se retiraram, uma a uma, abandonando a sala deserta e desguarnecida. Depois, as suas m„os afoitas tremeram, as pernas esbeltas vacilaram e, uma noite, a apoplexia apertou-lhe a garganta com as suas m„os aduncas e gÈlidas. Tornou-se, desde ent„o, quezilento, ·spero. Censurava a dedicaÁ„o do filho e da mulher, atribuindo os seus cuidados enternecidos, desvelados, ao facto de ele ter empregado toda a sua fortuna em rendimento vitalÌcio. Elvira e Filipe choravam l·grimas amargas e redobravam de carÌcias para com o maldoso velho, que, em voz enfraquecida, que procurava tornar afectuosa, dizia:

-

Meus amigos, minha querida esposa, perdoam-me, n„o È verdade? Atormento-vos um pouco. Ah!, meu Deus! porque te serves de mim para pÙr ‡ prova estas santas criaturas? Eu, que devia ser a sua alegria, n„o passo do seu martÌrio...

Assim os acorrentava ‡ cabeceira do seu leito, fazendo-lhes esquecer meses de rezinga e de crueldade, naquela hora em que lhes desvendava os inesperados tesouros da sua espirituosidade e da sua falsa ternura. Este seu modo paternal resultou infinitamente melhor do que o outro usado por seu pai. Por fim o seu estado agravou-se de tal maneira que, para o meterem na cama, era necess·ria uma manobra tal como a de meter uma embarcaÁ„o num canal perigoso. E chegou o dia da morte. T„o brilhante e cÈptica personagem, em quem sÛ a inteligÍncia parecia escapar ‡ mais terrÌvel de todas as destruiÁıes, viu-se entre um mÈdico e um confessor, as suas maiores antipatias. Mas mostrou-se jovial. Para ele n„o existia qualquer luz cintilando para alÈm da cortina que ocultava o futuro. Sobre essa tela, opaca para os outros e di·fana para ele, as belas, arrebatadoras delÌcias da mocidade moviam-se como sombras.

Foi numa bela noite de ver„o que D. Juan sentiu que a Morte se aproximava. O cÈu de Espanha tinha uma admir·vel pureza, as laranjeiras perfumavam o espaÁo; as estrelas irradiavam uma viva claridade. A natureza parecia oferecer-lhe provas irrefut·veis da sua prÛxima ressurreiÁ„o. Um filho carinhoso, dedicado, contemplava-o com amor e respeito.

Cerca das onze horas desejou ficar sÛ com t„o c‚ndida criatura:

-

Filipe - disse-lhe com voz de um afecto e uma ternura tais que o moÁo estremeceu, chorou de felicidade ao ouvir o pai pronunciar assim o seu nome. - Escuta, meu filho -

continuou o moribundo. Sou um grande pecador. Por isto toda a vida pensei na Morte.

Outrora fui amigo do grande papa J˙lio II. Esse ilustre pontÌfice receou que os meus excessos me levassem a cometer qualquer pecado mortal entre o meu ˙ltimo suspiro e o momento em que me ministrassem os santos Ûleos. Para que assim n„o sucedesse fez-me presente de um frasco contendo ·gua santa que, noutros tempos, jorrava dos rochedos do deserto. Guardei segredo sobre esta concess„o da Igreja mas fui autorizado pelo dito Papa a, in extremis, revelar tudo a meu filho. Encontrar·s esse frasco na gaveta da mesa gÛtica, que nunca deixei afastar da minha cabeceira... O frasquinho tambÈm te poder· ser

˙til, querido Filipe. Jura-me, pois, pela tua salvaÁ„o, que executar·s pontualmente as minhas determinaÁıes!...

Filipe fitou o pai. D. Juan conhecia bem a express„o dos sentimentos humanos para n„o morrer em paz sem reconhecer fidelidade nos olhos do filho, para mais lembrando-se de que seu pai morrera de desespero soletrando-lhe nos olhos as intenÁıes:

-

Merecias melhor paternidade, Filipe - prosseguiu D. Juan. Assim ouso confessar-te, meu filho, que, no momento em que o abade de San-Lucar me administrava o Sagrado Vi·tico, eu pensava na eterna incompatibilidade de dois poderes t„o fortes como o de Deus e o Diabo...

-

Oh!, meu pai!

-

E dizia comigo: quando Sat„ fizer a paz com a divina omnipotÍncia, dever·, sob pena de ser um grande rÈprobo, estipular o perd„o dos seus sequazes. Este pensamento n„o me largou mais. Porque eu irei para o Inferno, meu filho, se n„o cumprires ‡ risca os meus

˙ltimos desejos...

-

Oh!, diga-mos sem demora, meu pai!

-

Pois bem. Logo que eu tenha expirado, talvez daqui a poucos minutos, pegar·s no meu corpo ainda quente e estendÍ-lo-·s sobre uma mesa, no meio deste quarto. Depois apagar·s o candeeiro. A claridade das estrelas devera bastar-te. Ent„o despes-me e, enquanto fores rezando padre-nossos e ave-marias, elevando a tua alma a Deus, ter·s o cuidado de humedecer, com essa ·gua miraculosa, os meus olhos, os l·bios, toda a cabeÁa, em primeiro lugar e, em seguida, sucessivamente, os membros e o tronco. Entretanto, filho, toma bem nota de que o poder de Deus È t„o grande que n„o dever·s estranhar coisa alguma!

Nesta altura, D. Juan, que sentia a morte chegar, acrescentou com voz temÌvel:

- Segura bem o frasco!

Depois expirou suavemente nos braÁos do filho, que vertia copiosas l·grimas naquelas faces irÛnicas e lÌvidas.

Era cerca de meia-noite quando D. Filipe Belvidero colocou o cad·ver sobre a mesa. Beijou-lhe a fronte e os cabelos encanecidos e apagou o candeeiro. A claridade suave do luar que iluminava o campo com revÈrberos caprichosos mal permitiu ao piedoso mancebo distinguir o corpo do pai, como uma alongada mancha branca no seio da sombra. Embebeu um pano no lÌquido e, recolhido em oraÁ„o, ungiu a cabeÁa do querido defunto, em profundo silÍncio.

Ouvia indistintos rumores, mas atribuÌ-os ao cicio da brisa na copa das ·rvores. Mal acabava de molhar o braÁo direito do morto quando lhe pareceu que outro braÁo veio apertar-lhe tenazmente o pescoÁo. Sentindo-se estrangulado, soltou um grito dilacerante e deixou cair o frasco, que se quebrou. Os criados acorreram trazendo luzes. O grito tinha-os aterrado como se a trombeta do JuÌzo Final tivesse abalado os ecos do mundo. Num momento o quarto encheu-se de gente. A criadagem, trÈmula, encontrou D. Filipe desmaiado mas seguro pelo braÁo forte de seu pai, que o estrangulava. Depois - caso sobrenatural!-

os circunstantes depararam com a cabeÁa de D. Juan t„o jovem e bela como a de Antinos; uma cabeÁa de cabelos negros, olhos brilhantes, boca vermelha, e que se agitava horrivelmente sem poder mover o corpo esquelÈtico a que pertencia.

Um velho serviÁal gritou:

- Milagre!

E todos aqueles espanhÛis repetiram, em unÌssono:

- Milagre!

Suficientemente religiosa para n„o se fiar nos mistÈrios da Magia, Dona Elvira mandou chamar o abade de San-Lucar. O p·roco assim que pÙde constatar o milagre, pensou logo aproveitar-se do extraordin·rio facto, como homem esperto e abade que sÛ desejava aumentar os rendimentos da freguesia. Declarando imediatamente que D. Juan seria canonizado, infalivelmente, marcou a cerimÛnia para a epifania para o seu convento, que daÌ em diante

- declarou - San-Juan de Lucar. A estas palavras, a cara do defunto teve um esgar irÛnico.

A inclinaÁ„o dos espanhÛis por este gÈnero de solenidades È t„o conhecida que n„o ser·

difÌcil conceber a pompa das cerimÛnias religiosas em que o cura de San-Lucar celebrou a trasladaÁ„o do bem-aventurado D. Juan Belvidero para a sua igreja.

Alguns dias depois da morte daquele ilustre senhor, o milagre da sua ressurreiÁ„o incompleta foi t„o largamente comentado, de povoaÁ„o em povoaÁ„o, num raio de cinquenta lÈguas ‡ volta de San-Lucar, que, num grande espect·culo de peregrinaÁ„o, os curiosos acorreram de todos os lados, atraÌdos pela perspectiva de um Te Deum solenemente cantado ‡

luz dos cÌrios. A antiga mesquita, agora igreja do convento de San-Lucar, maravilhoso edifÌcio construÌdo pelos mouros e cujas abÛbadas escutavam, havia sÈculos, o nome de Jesus em substituiÁ„o do de Allah, n„o pÙde conter a multid„o que vinha assistir ao acto.

Apertados como formigas num formigueiro, os fidalgos, com suas capas de veludo e belas espadas ‡ cinta, conservavam-se junto dos pilares, quase sem espaÁo para dobrar o joelho que sÛ ali se dignavam dobrar. Encantadoras camponesas com as vasquinhas a moldarem-lhe as formas airosas, davam o braÁo a velhos encanecidos. MoÁos, de olhos ardentes, eram vistos ao lado de velhas arrebicadas. Avistavam-se ainda, entre a multid„o, parzinhos jovens radiantes de alegria, namoradas curiosas trazidas pelos bem-amados, algumas casadinhas de fresco, e, finalmente, crianÁas receosas pela m„o das m„es. Toda aquela gente estabelecia flagrantes contrastes, carregada de flores, colorida, despertando um surdo rumor na quietaÁ„o da noite.

As grandes portas da igreja descerraram-se. Os que haviam chegado tarde de mais ficaram no adro, assistindo de longe, pelos portais escancarados, a um espect·culo de que as reduzidas cenas das Ûperas modernas nunca poder„o dar uma p·lida ideia. Devotos e pecadores empenhados em ganhar as boas graÁas dum novo santo, acenderam em seu louvor milhares de cÌrios na vasta igreja, fl‚mulas interesseiras que emprestavam aspectos de magia ao majestoso templo. As escuras arcarias, as colunas e os seus capitÈis, as capelas profundas, resplandecendo de ouro e prata, as galerias, os rendilhados mouriscos, os mais subtis pormenores daquela arquitectura delicada, desenhavam-se num exuberante clar„o, como as figuras caprichosas dos grandes brasidos ardentes. Era um mar de luzes, dominado ao fundo pelo coro dourado sobranceiro ao altar-mor, rivalizando, em esplendor, com o Sol nascente. Com efeito, o brilho dos ·ureos lampad·rios, dos candelabros argÍnteos, dos panejamentos, das imagens e dos éx-votoª parecia esmorecer ante o relic·rio que continha o corpo de D Juan. Os restos mortais do Ìmpio resplandeciam de pedrarias, flores, ouro, plumas brancas como asas de anjo e substituÌam, sobre o altar, um painel de Cristo. ¿ sua volta numerosas flamas erguiam no ar clarıes rutilantes.

O bom abade de San-Lucar, com paramentos pontificais, a mitra ornada de pedras preciosas, de sobrepeliz e b·culo de ouro, sentava-se, como monarca, num cadeir„o de luxo imperial, no meio do seu cabido, composto de impassÌveis anci„os encanecidos, vestidos de alvas e que o rodeavam, como as santas figuras que os pintores agrupam, nos seus painÈis, ‡ volta do Eterno.

O grande chantre e os dignit·rios do capÌtulo, ostentando as vistosas insÌgnias das suas prerrogativas eclesi·sticas, iam e vinham por entre nuvens de incenso. Quando chegou a hora da solene consagraÁ„o, os sinos tangeram e todos dirigiram ao AltÌssimo a primeira hossana de louvor, que iniciou o Te-Deum. Clamor sublime! Eram vozes puras, cristalinas, de mulheres em Íxtase, confundidas com vozes masculinas, fortes e graves, num coro t„o poderoso que o Ûrg„o n„o conseguia domin·-lo com o vibrar dos seus largos acordes. SÛ as notas agudas dos meninos do Coro e as dos barÌtonos suscitavam a ideia da inf‚ncia e da forÁa naquele fant·stico concerto de vozes humanas unidas num sentimento de amor:

- Te Deum laudamus!

Do ‚mago do vasto templo enxameado pela multid„o ajoelhada, aquele coro cresceu como uma claridade que cintilasse repentinamente na noite e o silÍncio como que foi cortado por um ribombar. As vozes ascendiam com as nuvens do incenso que toldavam as majest·ticas maravilhas arquitectÛnicas em di·fanos vÈus azulados. Tudo era magnificÍncia, perfume luz e polifonia.

No momento em que o grave hino de gratid„o e de amor atingiu o altar-mor, D. Juan, suficientemente cortÍs para nada levar a mal, esboÁou um lÌvido sorriso e envaideceu-se no interior do relic·rio.

PorÈm o Diabo, lembrando-lhe o risco de passar assim por um homem vulgar, por um santo, um bonifrates ou um Pantale„o, perturbou a grande polifonia de amor com um bramido, a que se juntaram as mil vozes do Inferno. A Terra abenÁoava, e o CÈu maldizia. O templo estremeceu sobre os seus remotos alicerces.

- Te Deus laudamus ! - clamava a multid„o.

- V„o para todos os diabos, est˙pidos animais que sois! Deus! Deus! Que sois vÛs com o vosso Deus encanecido?

E uma torrente de imprecaÁıes correu como caudal de lavas ardentes, arremessadas por uma erupÁ„o do Ves˙vio.

- Deus Sabaoth!... Sabaoth! - bramiam os crentes

- Insultais a majestade do Inferno! - tornou D. Juan, rangendo os maxilares.

Momentos depois o seu braÁo ressuscitado, saindo do relic·rio, ameaÁou a turba com um gesto de desespero e de ironia.

- O santo abenÁoa-nos! - gritaram as velhas, as crianÁas e as noivas, crÍdulamente.

Desta maneira somos muitas vezes iludidos nas nossas crenÁas. Mas o homem superior ri-se dos que o louvam e louva, muitas vezes, aqueles de quem se ri no seu Ìntimo.

No momento em que o p·roco, prosternado ante o altar, entoava: Sancte Johannes, ora pro nobis...ª ouviu distintamente a palavra - imbecil!

- Que se passa ali? - exclamou o coadjutor ao ver o relic·rio mover-se.

O Santo antes parece o Diabo - retorquiu o prior.

Nesse instante a cabeÁa vivente de D. Juan separou-se violentamente do seu corpo inerte e foi cair sobre a cabeÁa do esbelto e jovem oficiante:

-

Lembra-te de D. Elvira! - gritou aquela cabeÁa mordendo o abade.

Este deixou escapar um grito de dor, que interrompeu a solene cerimÛnia. Todos os padres acudiram e rodearam o seu superior hier·rquico.

-

Pateta! Dize agora que existe um Deus! - rugiu ainda a voz infernal, quando o abade, atingido no cr‚nio pela mordedura, expirava.

Paris, Outubro de l830

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